30.3.05

Somos filhas, mães, amigas, colegas, confidentes. Exigimos muito de nós mesmas, e somos exigidas. Não podemos sentar de pernas abertas – é feio. Uma "mocinha" não se comporta assim.
Precisamos de atenção. Mas atenção demais nos traz desconfiança.
Nascemos para amar e ser amadas, e gostamos muito de ficar sozinhas.
Choramos vendo um filme bobo, e somos fortes o suficiente para gerar outra vida dentro de nós.
Complicadas? Extremamente! Não conseguimos nos entender, e mesmo assim ficamos indignadas quando não nos compreendem.
Reivindicamos direitos iguais, e sempre queremos voltar ao nosso cantinho, quietas, cuidando das mesmas coisas que cuidavam nossas avós - mas dessa vez com anestesia, claro.

Quisera eu entender as mulheres.

No ônibus

Um homem falava incansavelmente em todo o trajeto. Discursou sobre política, religião. Falou de Maria Madalena e do Código Da Vinci – são coisas do demônio, segundo ele. Falou da Bíblia e do código da Bíblia; sobre Hitler e a composição cerebral; falou de química, homeopatia, tratamentos médicos - e deu dicas de bons médicos. Criticou a tatuagem, dizendo que é a maior agressão que alguém pode fazer ao próprio corpo. "O corpo é assim, temos que deixá-lo do jeito nascemos."
Em quase uma hora (que deveria ter durado vinte minutos, se não fosse o trânsito) ele discorreu sobre os mais diversos assuntos. No final, pouco antes de descer, falou à sua ouvinte: "Vou te contar uma coisa, mas não ache estranho. Acabei de voltar de um tratamento de duas semanas para esquizofrenia. - (EU é que não estranhei) - Agora vou estudar física quântica."
E a mulher: "Cuidado pra não ficar mais louco do que já é."
"Pode deixar. Pelo menos não vou fazer tatuagem."
Acho que duas semanas foram pouco...

28.3.05

Kiko & Kika

Quando eu estava no jardim de infância era muito criativa. Eu imaginava que o nosso chão ficava em cima de um mundo paralelo, cheio de bruxas. O solo onde pisávamos, se cavássemos bem fundo, daria no céu desse mundo.
Durante o recreio eu e minhas amiguinhas do jardim costumávamos cavar o jardim da escola a fim de comprovar a nossa teoria. Nunca chegamos a cavar o suficiente.

Na casa que eu morava quando era criança tinha uma espécie de areazinha, que ficava ao lado do quarto da minha irmã, e que também podia ser acessada pulando a janela do meu quarto. Eu imaginava que, de vez em quando, pousava uma nave cujos tripulantes eram sapos gigantes, do tamanho dos meus pais, que vinham de uma cidade próxima para confraternizar conosco. Até hoje não sei se cheguei mesmo a ver os sapos, ou se foi tudo fruto da minha imaginação.

Ao contrário das bruxas, os sapos eram amigáveis. Mais tarde dois deles chegaram a fazer sucesso na mídia. Tinham uma voz eletrônica, e lançaram um vinil como Kiko & Kika. Bons tempos aqueles.

Jejum de Páscoa

Chocolate.
Pizza.
Sucrilhos.
Salmão.
Salada.
Cerveja.
Linguiça.
Sorvete.
Mais chocolate.
Carne.
Cerveja.
Maionese.
Arroz.
Cerveja.
Mais carne.
Mais maionese.
Mais arroz.
Bolo.
Bacalhau.
Salada marroquina.
Bacalhau.
Salada marroquina.
Bacalhau.
Salada marroquina.
Cerveja.
Torta de sonho de valsa.
Mais chocolate.
Muito mais chocolate...
E cerveja.

24.3.05

Incoerência

Enquanto a imprensa internacional discute, estarrecida, o desligamento dos aparelhos de Terri Schiavo, vamos nós, seres civilizados, comemorar o calvário, crucificação e morte de uma das figuras mais importantes da história.
Feliz Páscoa a todos.

22.3.05

Meu apartamento tem floreira
Onde canta o periquito pré-histórico
As aves que ali gorjeiam,
Um dia serão extintas.

Em cismar, sozinha (como sempre) à noite,
Um certo prazer encontro eu lá;
De manhã, naquela floreira
O periquito do demônio fica grunhindo sem parar.

Um dia eu te mato, pássaro maldito!
O meu pai era de Piraí.
Meu avô, de algum vão.
O meu bisavô, catarina.
Meu tataravô, alemão.
Pra terminar esse refrão
Vou escrever a palavra rima. E Ponto.
Acabei de ler um livro que me deixou com vontade de fazer faculdade de história.
Quando criança, fiz balé porque a minha irmã fazia.
Saí do balé e fiz piano, copiando o que minha irmã fez.
Entrei na aula de pintura em porcelana incentivada por umas amigas, que também entraram.
Fiz vestibular pra farmácia, porque um dos meus melhores professores do colégio era farmacêutico, e falava muito bem do curso.
Cansei. Decidi ter personalidade. Só não sei em quem me inspirar.
No primeiro ano da faculdade, na era glacial, umas colegas chegaram pra mim e disseram: "Nossa, Marcela, eu queria ser como você. Está sempre sorrindo, parece que não tem problemas!"
No mesmo dia cheguei em casa e chorei. Minha vida estava em crise; eu, cheia de neuroses, e ainda vinham me dizer que eu não tinha problemas? Que que é isso!!
Hoje estou muito bem. Fora alguns detalhezinhos, dá pra dizer que minha vida é muito boa. Tenho amigos, família, e uma pessoa que eu amo muito. Sei que também me amam. POR QUE É QUE AGORA NINGUÉM VEM ME DIZER NADA?

Eu já fui autista

Toda vez que viajávamos, fosse pra praia ou pra visitar algum parente, eu cumpria o mesmo ritual. Passava a viagem inteira contando os carros da estrada (na época era fácil, as estradas não eram duplicadas. Hoje seria inviável).
Acredito que meus pais deviam se sentir aliviados, porque eu ficava ali, isolada no meu mundinho, onde só o que importava era saber quantos bestas tinham saído de suas casas pra passar o feriado - ou final de semana - num congestionamento.
Até que entrei num dilema: deveriam entrar na contagem só os carros que vinham em sentido contrário, ou aqueles pelos quais passávamos? Porque se contássemos os que ultrapassávamos, poderia se tornar um número irreal, já que o mesmo carro poderia nos ultrapassar novamente, e nós também poderíamos tornar a ultrapassá-lo... foi um dilema!
Então desisti de contar carros. Passei a criar joaninhas (dentro do carro).

18.3.05

O dia de hoje começou como um dia qualquer, numa semana qualquer, numa cidade qualquer.
Então sou lembrada de que hoje, três meses antes, minha vida mudou de uma vida qualquer pra uma vida com sentido, quando encontrei alguém que está longe de ser um qualquer, e que dá sentido ao que eu faço, ao que eu quero, e ao que espero do meu futuro. E de um jeito diferente, não como antes, quando eu achava que sabia o que queria.
Então o dia segue cheio de sorrisos, de abraços imaginários, lembranças e esperanças. E certezas.
Ele me disse "obrigado" por ter mudado a sua vida. Eu é que agradeço por ter dado sentido à minha.

17.3.05

Frustrante

Estava eu, tranquila e serena no trabalho, quando resolvi ler os cargos disponíveis na página dos processos seletivos.
Fui ler os requisitos para um dos cargos, e entre os conhecimentos e habilidades exigidos encontrava-se "tolerância à frustração".
Deve ser empolgante.

15.3.05

8.3.05

Já me chamaram de tanta coisa nessa vida, e eu ainda me surpreendo com a capacidade que as pessoas têm de confundirem o meu nome. Não sei se eu tenho problema de dicção, ou se o resto da humanidade é que tem de audição.
Fui chamada tantas vezes de Maristela, que quando ouço esse nome, respondo de imediato (com raiva, é claro).
Esses dias, por telefone...

- "Quem fala?"
- "Marcela", eu respondi.
- "Raquel, eu queria falar com..."

No início eu teimava em tentar fazer a pessoa repetir o meu nome corretamente, mas hoje em dia assimilei essas múltiplas denominações.

- "Tá bom, já chamo."
- "Obrigado, Raquel."
- "Disponha..."

3.3.05

O meu maior desespero ao sair de casa pra trabalhar é de ficar sozinha no ponto de ônibus. Eu simplesmente não consigo enxergar qual está vindo, a não ser quando o ônibus está praticamente na minha frente, o que pode, algum dia, me fazer perdê-lo e ter que esperar o próximo, torcendo pra chegar alguém que pegue o mesmo.
Agora, no entanto, desenvolvi a habilidade de identificar os borrões que aparecem pra mim no lugar do destino, e isso tem dado certo. O meu ônibus é um borrão mais extenso, com uma interrupção no meio. Um borrão contínuo e um pouco mais cheio é o Circular. Esse eu não pego.

1.3.05

Se eu te perder

Se eu te perder, talvez acabe por viver um pouco em paz, sem tensões e sem ansiedades, sobretudo sem angustiosas esperas por impossíveis sonhos.
Se eu te perder, com certeza sobrarão horas para executar pequeninas coisas, sempre adiadas ou esquecidas: arrumar gavetas, consertar defeitos dos objetos, rasgar papéis, limpar armários, doar velhas roupas, atualizar correspondências, visitar velhos amigos, ler o dia inteiro, passear no calçadão, sentar à beira-mar, ouvir o barulho da chuva caindo e, com grande disponibilidade, chorar... chorar e chorar.
Se eu te perder enfrentarei, essencialmente, o sólido e espinhoso entendimento de que o amor possui muitos caminhos. Saberei, sangrando, que o rumo da saudade é a única trilha para chegar à cura da paixão. Sentirei, pulsando, que todo afeto sulca marcas no invisível do que somos, daí resultando o visível vir-a-ser, no que fomos.
Se eu te perder buscarei todas as desconhecidas estratégias do recomeçar: pintar novos cenários existenciais, com novos pincéis que fabricarei em nome do desespero de viver; ouvir músicas que jamais passaram pelo meu repertório favorito, tentando nelas descobrir significantes e significados ignorados: reavivar o quanto dos meus desejos e prazeres infantis ainda estão insepultos, a despeito do muito que deles deixei enterrar, por obediência às convenções e às imposições; (re)acender o derradeiro fogo vivo que sempre iluminou minha busca pela felicidade, e que foi justamente apagado quando me levaste à terna sombra de um convívio, onde nossos corpos começaram a ter luz própria.
Se eu te perder pedirei ao primeiro pássaro volateante que leve minha mensagem a todos os solitários, por aí abandonados: - É preciso crer que tudo muda - as pedras mudam, os tempos mudam, os amores mudam, de um sol para uma lua. E mais: seguirei das formigas o andejar, delas assimilando lições de cooperação, de servir, no destino do imenso formigueiro que é o mundo, sobre o qual passamos... passamos... passamos... felizmente.
Se eu te perder em conseqüência de todos os meus erros, reconsiderarei idéias básicas sobre "posse" e "liberdade". Proclamarei minhas falhas, revelarei as tuas - se é que existiram -, e tentarei, por vias que desconheço, atingir a tranqüila serenidade de não exigir dos outros o que não posso cobrar de mim mesmo.
Se eu te perder, todas essas aprendizagens acima descritas deverão ser vivenciadas e consolidadas - eis o que me dizem os amigos, os analistas, os conselheiros de rua, os experientes da vida, os professores de humanismos vários, os filósofos, os psicólogos e, até, os metafísicos. Porque eles sabem de tudo e possuem remédio para todos os males.
Quanto a mim, com toda a loucura de existir que é a minha plena lucidez, só posso incansavelmente afirmar: Se eu te perder, não sei como me encontrar.
(recebido por e-mail - Ai, ai...)