28.4.05

No ônibus

- Moça, aquela senhora em pé é gestante?
Olhei, analisei (discreta, como só eu). Ela tinha uma pancinha, mas não dava pra saber se era de gravidez.
- Não sei, eu disse. E fiquei na dúvida. Antes ficar na dúvida do que ofender a moça.
Alguns minutos depois:
- Moça, pergunta se ela quer sentar aqui.
Eu, perguntar? Nem morta! Será que é gestante? Cutuquei.
- Ei, ela está te chamando.
- Quer se sentar aqui?
- Não, não, obrigada.
É... não era. Situação constrangedora.
Se fosse eu no lugar dela, teria segurado a pança com as duas mãos e me dirigido lentamente ao banco, como que protegendo meu bebê/tecido adiposo. Sentar-me-ia e a olharia com ternura, agradecendo, com cara de mãe. Ofendida, porém sentada.

27.4.05

26.4.05

Às margens do Lago Sul sentei e chorei

Sinto uma raiva pulsando em mim, louca pra sair.
Às vezes ela sai, mas quieta, disfarçada de surto. Ninguém leva a sério. Eu não levo a sério. E fica por isso mesmo...
Na maior parte do tempo ela fica escondida, ardente, agonizante, querendo explodir, mas se contém dentro de mim como quem tem vergonha ou medo.
No momento tenho raiva dessa cidade onde vivo, do seu governante e das pessoas que a idealizam.
Moro num monumento vivo que não pode ser tocado, só observado às margens por aqueles que o sustentam.
Quanta injustiça, quanta coisa pra fazer. Quantas crianças sujas, famintas, magérrimas, correndo pelas ruas por onde não passa ninguém, entrando sempre pela porta de trás, escondidas, sorrateiras, sem saber ao menos pra onde vão. Mas vão.
Enquanto isso noticiam o crescente índice de desenvolvimento humano, as conquistas, a alta renda per capita; índices nos quais só se entra em traje social e de carro, porque o ônibus pode não passar – e provavelmente não passará.
Hoje o dia começou de mal comigo.
Está se encerrando em processo de litígio.

25.4.05

A última tragada

O ruim de se adquirir um vício, como esse meu de assistir filmes compulsivamente, é não ter um suporte à altura por perto. No meu caso o problema é a locadora. É pequena, sem muitos recursos, e sem muitos exemplares também. Quando chega um filme novo, lá se vão algumas semanas pra conseguir alugá-lo, caso contrário tenho que faltar ao trabalho e dar plantão em frente à locadora – o que obviamente não faço já que ainda me encontro empregada.
Mas chega uma hora na nossa vida que o conteúdo não importa realmente, o que importa é manter o vício - como aquele fumante que, na falta de um cigarro de qualidade, fuma Camel por desespero.
Eu costumo ser uma pessoa seletiva (tá, tô falando de filmes, não de relacionamentos). Posso passar um bom tempo na locadora até achar o filme. Normalmente esbarro naqueles que, só pela capa eu penso: "Não, esse não... deve ser uma porcaria" e passo batido por eles, superior, onisciente. "No meu DVD nunca tocará!"
É quando o mercado começa a ficar escasso e tenho que selecionar entre os filmes que eu fingia que não conhecia algum que possa ser mais ou menos, só pra matar o tempo mesmo... Acabo descobrindo que eles realmente são bem mais ou menos, e que meu sexto sentido ainda funciona. Até que esses também acabam e só sobram aqueles inassistíveis.
Então, como uma bêbada no fundo do poço, respiro fundo e penso: é a última tragada, eu juro.

22.4.05

Eu amo o Shoptime

Eu tenho um sério problema, sou uma compradora-compulsiva-de-produtos-anunciados-na-televisão.
Começou na minha infância, com a influência maligna dos meus pais. Eles eram fiéis aos produtos espetaculares lançados na mídia. Tínhamos em casa as famosas meias Vivarina, e também o conjunto (ou devo dizer os conjuntos) de facas Ginsu - que até hoje faz parte da minha vida.
Sempre adorei números, mas um que marcou muito a minha infância foi o zero-onze-quatorze-zero-meia. Eu delirava ao ouvi-lo.
Hoje, como uma filha de viciados que foi drogada durante toda a sua infância, não resisto a anúncios. Dá tremedeira.

20.4.05

Eu já viajei escondida,
já subi num palco,
já toquei bateria,
já dei vexame,
já fui assaltada de mentira, com uma amiga, porque esquecemos de levar dinheiro e não tínhamos como pagar a conta,
já fiz amigos virtuais,
já fiz desses amigos virtuais, amigos reais,
já fui idealista,
já tive depressão,
já tive uma gata,
já tive cachorros,
já namorei cachorros,
já quis ser mãe,
já quis ser freira,
já ganhei na loteria (2 reais, mas ganhei),
já morei sozinha,
já morei com amigas,
já fiz poesia,
já quis escrever um livro,
já tive vergonha.

Queria poder reviver essa lista. Sem a parte da vergonha, claro.

19.4.05

Trauma de la infancia

Ficam me chamando de louca e preconceituosa. Olham com cara feita toda vez que destilo meu ódio contra os argentinos. Na verdade não é ódio, é medo.
Enquanto eles, quando crianças, tinham pesadelos com índios, eu os tinha com argentinos que me forçavam a ouvir tango y otras cositas más que é-melhor-nem-lembrar-de-tão-terríveis.

Caros hermanos

Lamentável, lamentável a atitude daquele argentino... tinha que ser preso mesmo! E virar mulherzinha na cadeia.
Se eu fosse presidente do Brasil, faria uma lei para que os argentinos fossem presos só por pisar em solo nacional. Atentado ao pudor, ou qualquer coisa que valesse.

15.4.05

Na última encarnação

A vantagem de não ser uma pessoa presa a padrões é não se importar em ter amigos não convencionais.
Analisando a situação por outro ângulo, quando você está naquela em que um elogio salva o dia, basta ligar para um desses amigos e se sentir superior - como quando você liga para determinada pessoa que toma remedinho pra cabeça, leva uma invertida na conversa (ou várias), mas no final pergunta se ela esqueceu de tomar o remedinho, ou, em caso de resposta negativa, sugere que vá ao médico e peça para aumentar a dose. Sempre funciona e você sai por cima.
Ontem descobri o quanto minha alma é elevada. Devo estar na última encarnação por ser tão compreensiva com pessoas que não merecem, mas que eu insisto em chamar de amigos.

Acho que vou fundar uma religião. Sei lá...

14.4.05

Fábrica de chavões

Às vezes eu começo a escrever um post a partir de uma única frase. À medida em que escrevo penso na frase seguinte, e na seguinte... aí vai se desenvolvendo o texto.
Então, de repente, surge uma frase de impacto que cairá muito bem e dará um clima especial - como essa que veio agora há pouco, como quem não quer nada, sorrateira, e me levou a escrever esse texto: "A verdade é triste, mas alguém tem que revelá-la."
Pensem só. Existe uma verdade, que é triste. E alguém - uma pessoa escolhida, talvez eu, quem sabe... - revelará ao mundo, e depois disso nada será como antes. Opa! "Depois disso nada será como antes" também está no top das frases (sou praticamente uma fábrica de chavões).
Mas o fato é que empaquei. Não consegui escrever mais nada além dela. Que verdade é essa que eu não sei? Se existe tal triste verdade que alguém deveria revelar, com certeza não sou eu!
Alguém pode me contar que porcaria de verdade é essa pra eu poder continuar escrevendo meu texto?!

13.4.05

Ode aos 80

Sou da turma de 81. Nasci e fui criada na década de 80. Não sei quanto às outras, mas aquela década foi mágica.
Tínhamos a Gretchen no auge da carreira.
Lambada, pogo-bol.
A peteca era um esporte popular.
Super trunfo! Quem nunca jogou super trunfo?!
Na televisão existiam muitos programas realmente infantis. Foi a época do Fofão, Topogiggio, Bozo, Balão Mágico, Vovó Mafalda.
O Sérgio Malandro ainda era gente, e vivia fazendo par romântico com a Xuxa.
A Porta dos Desesperados, e a Porta da Esperança! O sonho de todo mundo era participar da Porta da Esperança!
Foi a época áurea da Xuxa. As crianças a imitavam como as de hoje imitam a Sandy – ou as dançarinas do Tchan, dependendo da criança...
Tancredo Neves foi eleito e morreu nos anos 80.
Aprendíamos a calcular inflação no colégio. A moeda mudava de nome como quem muda de roupa.
Tínhamos jogos educativos; brincávamos de lego, massinha, pulávamos corda – quem hoje pula corda?
E o Atari... ah, o Atari! Era um videogame pobre de recursos. Só tinha um botão vermelho num controle todo preto, mas quase todos tinham e adoravam. Era uma unanimidade nacional.

Um minuto de silêncio pelo meu Atari.

Ah, Atari...

12.4.05

Não há lugar melhor que o nosso lar...

Enquanto morava no sul, vivia reclamando da temperatura, das estações que teimavam em aparecer todas no mesmo dia, da falta de sol, da falta de calor do sol, do vento, do lábio cortado do frio...
Bem feito. Tanto reclamei que agora estou morando num microondas ambulante. É pra eu aprender a ficar calada.
Eu tenho essa paixão por teflon. Amo panelas antiaderentes. Poderia matar por elas.

Historinha

Brasília é uma cidade linda, cheia de verde, árvores e pessoas... não, pessoas não. Dizem por aí que já viram algumas na rua. Pra mim é mais uma daquelas histórias passadas de geração em geração, originalmente contadas para que as crianças dormissem confortadas; histórias das quais, às vezes, você se pega lembrando.

11.4.05

Sotaque

Cheguei a uma terrível constatação: eu tenho sotaque.
Enquanto aqui as pessoas se expressam em soneto, eu falo polka.

6.4.05

Comentário de um colega de trabalho sobre as fotos que eu tirei na páscoa:
"No sul vocês não têm melanina?"

Herege

Ontem falei mal do papa. Hoje uma porta cai na minha testa.
As portas do céu estão se abrindo para ele (e caindo sobre mim).

5.4.05

Fico imaginando um papa brasileiro. Depois da descoberta de que deus é brasileiro, o papa vai ser também tupiniquim. E viva o sexo, as drogas e a MPB!
Coisa mais mórbida é ficar se aglomerando pra ver o corpo mumificado do Karol. Tá certo, não posso negar a influência mundial que suas idéias tiveram nas últimas décadas. Mas também não dá pra dizer que ele tinha o seu rebanho nas mãos - se fosse assim, a taxa de natalidade entre o povo católico apostólico romano teria crescido, não diminuído; a AIDS teria se dissiminado ainda mais, assim como diversas outras doenças sexualmente transmissíveis. Eu acho inadmissível o papa, como representante maior da igreja, condenar o uso da camisinha, da pílula e dos demais métodos contraceptivos. Vá lá, ele morreu. Deve ter sido perdoado, depois de tanta oração que fizeram por sua alma.